Como uma mãe solo transformou temperos caseiros em sustento e independência em Rondônia
- há 3 dias
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Yasmin Sobrinho - jornalista
Sem emprego formal, cuidando sozinha dos filhos e longe da família, Milena Silva encontrou no empreendedorismo a única saída para sobreviver. Hoje, expõe os produtos na Rondônia Rural Show Internacional e representa a força do empreendedorismo feminino no estado.
Com apenas R$ 30 emprestado, dois filhos pequenos e nenhuma rede de apoio familiar em Rondônia, Milena Silva dos Santos fez dos temperos naturais uma alternativa para sobreviver.
Sete anos depois, a mulher que começou produzindo pequenas porções dentro de casa chega à 13ª edição da Rondônia Rural Show Internacional como expositora e faturando até R$ 5 mil por mês.
Recém-separada, sem ajuda financeira do pai das crianças e impossibilitada de assumir um emprego formal por precisar cuidar dos filhos, Milena encontrou no empreendedorismo não um sonho imediato, mas uma necessidade.
“Fiz uma pequena porção de temperos e ali esse meu amigo começou a me ajudar a vender, porque até então eu não tinha prática, não sabia vender direito. E ele me ajudou vendendo os primeiros potes daquela primeira remessa que eu fiz. Comprei mais ingredientes e, assim, fui fabricando”, relembra.
Vender para sobreviver
Sem experiência com vendas, Milena começou pequena. Os temperos eram colocados em uma caixa térmica e vendidos de porta em porta, sempre no intervalo entre os horários da escola dos filhos.

“Comecei vendendo porta a porta, colocava numa caixinha térmica e vendia nas lojas, indo de loja em loja, no horário em que meus filhos estavam estudando, porque no período da tarde eu ficava com eles. E assim começou o empreendimento”, conta.
A rotina exigia equilíbrio entre maternidade, contas e trabalho. Enquanto construía uma clientela, ela também aprendia algo que até então desconhecia: o empreendedorismo.
“Eu nem sabia o que era empreendedorismo. Comecei vendendo os primeiros produtos e fui aprendendo no caminho”, afirma.
Da informalidade à formalização
Com o crescimento das vendas e o retorno dos clientes, Milena entendeu que precisava profissionalizar o negócio. Foi quando buscou apoio para transformar a produção artesanal em uma empresa formal.
Ela abriu um MEI, fez cursos de capacitação, organizou a tabela nutricional dos produtos, regularizou a produção e patenteou a própria marca: Anelim, nome criado a partir do inverso do seu nome. O apoio técnico ajudou a estruturar uma ideia que começou apenas como alternativa financeira.
Segundo Carlos Machado, analista do Sebrae, pequenos empreendedores precisam desenvolver produtos alinhados às necessidades do cliente e aprender a se comunicar com o mercado.

“O produto precisa atender uma necessidade do cliente e ter condições de entrar no mercado. É importante saber se comunicar, pensar na embalagem, usar uma linguagem adequada e entender como o produto pode se diferenciar dos demais”, explica.
Ainda de acordo com o especialista, o acompanhamento inclui orientação desde a abertura da empresa até planejamento e consultorias para que o empreendedor consiga transformar uma ideia em negócio sustentável.
O peso invisível do empreendedorismo feminino
Para mulheres, especialmente mães solo, empreender também significa conciliar múltiplas jornadas. Além do trabalho, existe a responsabilidade com os filhos, a casa e a organização da vida financeira. “É difícil conciliar o cuidado da casa, dos filhos e do negócio”, resume Milena.
Hoje, além da renda familiar, ela comemora algo que, para muitos, pode parecer simples: estabilidade financeira. “Graças a isso eu consegui limpar meu nome. Não consigo expressar a minha felicidade de estar com as contas em dia”, diz.

Na Rondônia Rural Show, os filhos acompanham de perto a mãe em um momento simbólico da trajetória. Pela primeira vez, eles ajudam na montagem do estande em uma das maiores feiras do agronegócio da Região Norte.
“É a primeira vez que eu trago eles para a feira para arrumar o estande. Outras feiras menores já foram, mas, na Rondônia Rural Show, é a primeira vez”, conta.
A cena resume uma trajetória marcada por improviso, medo e persistência. O negócio que nasceu da necessidade virou sustento. E o sonho de manter a casa funcionando transformou uma mãe solo em empresária.
Pequenos negócios, grande impacto
A história de Milena reflete uma realidade maior do país. Segundo dados do Atlas dos Pequenos Negócios 2025, do Sebrae, cerca de 96 milhões de brasileiros dependem direta ou indiretamente da renda gerada pelos pequenos negócios.

O cálculo considera dados do IBGE, Receita Federal e pesquisas do Sebrae, levando em conta empreendedores com renda exclusiva do negócio, empregados e o tamanho médio das famílias impactadas.
Em muitos casos, como o de Milena, empreender não começa com investimento ou planejamento estruturado, começa pela urgência de sustentar uma família.
A trajetória dela também reflete uma mudança maior no estado.
Em Rondônia, o número de mulheres à frente de negócios já ultrapassa 86 mil empreendedoras. Elas representam aproximadamente 25% dos donos de negócios no estado e possuem forte presença nas plataformas digitais de fomento ao comércio local, onde chegam a representar 56% dos cadastros.
Os números ajudam a dimensionar uma realidade que, para muitas mulheres, nasce da necessidade de se transformar em independência financeira.
Mas, para Milena, os números ganham outro significado: o de uma vida reconstruída.
“Eu saí de um relacionamento sem dinheiro, cheia de dívida e com dois filhos. Hoje eu tenho meu empreendimento e não tem dinheiro no mundo que pague isso”, afirma.




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