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Crédito que movimenta a economia: como pequenos negócios de Rondônia crescem fora dos bancos tradicionais?

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 4 horas

Enquanto bancos tradicionais impõem burocracia e exigem garantias difíceis de cumprir, cooperativas de crédito despontam como alternativa para micro e pequenas empresas do estado. Em Porto Velho, uma fábrica de pão de queijo mostra como o cooperativismo de crédito não apenas sustenta um negócio, mas cria uma cadeia: fornecedor de matéria-prima virou também cliente da própria fábrica que abastece.


A produção de pão de queijo começou com 100 quilos por dia, hoje chega a 30 (trinta) toneladas por mês. Foto: Célio China
A produção de pão de queijo começou com 100 quilos por dia, hoje chega a 30 (trinta) toneladas por mês. Foto: Célio China

Conseguir crédito financeiro costuma ser o primeiro obstáculo para quem decide abrir ou expandir um pequeno negócio no Brasil. Falta de garantias, burocracia e juros altos são obstáculos comuns a quem precisa de crédito nos bancos tradicionais. Em Rondônia, uma alternativa a esse cenário vem ganhando força: o cooperativismo de crédito.


O cooperativismo brasileiro em expansão: 25,8 milhões de cooperados e R$ 757,9 bilhões movimentados em 2024. Fonte: Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025 (OCB).
O cooperativismo brasileiro em expansão: 25,8 milhões de cooperados e R$ 757,9 bilhões movimentados em 2024. Fonte: Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025 (OCB).

De acordo com o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, publicado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o país soma 25,8 milhões de cooperados — 66% a mais do que havia cinco anos atrás — e movimentou R$ 757,9 bilhões em 2024.


Em Rondônia, o crescimento segue proporção parecida: R$ 5,4 bilhões movimentados pelas cooperativas no último ano, um avanço de 6,5% em relação a 2023. Em meio a esse crescimento, a concessão de crédito se destaca com folga: são aproximadamente 493 mil cooperados que utilizam o serviço e R$ 4,83 bilhões movimentados, alta de 39% em doze meses, além de dar fôlego ao empreendedor, o segmento sustenta mais de 5 mil empregos diretos espalhados pelos 52 municípios do estado.


Quando o crédito vira oportunidade


O empresário Givanildo Honorato foi dono de um restaurante durante 14 anos e precisou fechar as portas durante a pandemia da Covid-19. Em meio a crise, nasceu a ideia de um novo negócio: uma fábrica de pão de queijo.


Nascido em Ji-Paraná, filho de mãe mineira e pai goiano, Givanildo já havia trabalhado como açougueiro, padeiro, confeiteiro e representante comercial em supermercado — uma bagagem que, segundo ele, foi essencial para enxergar o negócio de alimentação por dentro. A origem dos pais inspirou a marca: Norte Minas, unindo a região onde ele construiu a vida à terra de origem da família.


“A gente estava com dificuldade financeira na empresa, tinha que abrir alguma coisa. Começamos fazendo 100 quilos de pão de queijo por dia, só nós mesmo com a mão na massa”, conta o empresário.


Givanildo precisou de uma cooperativa de crédito para alavancar empresa.
Givanildo precisou de uma cooperativa de crédito para alavancar empresa.

Ter experiência no setor, porém, não resolvia sozinho o problema de capital. Sem dinheiro para equipar a produção, o negócio corria o risco de estacionar logo no início — e foi nesse ponto que a busca por uma linha de crédito cooperativo se tornou decisiva.


Tive que pegar crédito, com banco e com cooperativa, para poder investir na própria empresa. É um dinheiro que entra rápido, sem burocracia, e isso tem me facilitado bastante”, afirma.


Com o crédito em mãos, a produção deu um salto. A fábrica ganhou máquinas que reduziram o tempo de processo, câmara fria e linha de embalagem. O que começou com cem quilos de pão de queijo por dia hoje chega a trinta toneladas por mês.


Máquinas adquiridas com o crédito da cooperativa reduziram o tempo de produção e permitiram à fábrica ampliar a escala. Foto: Célio China
Máquinas adquiridas com o crédito da cooperativa reduziram o tempo de produção e permitiram à fábrica ampliar a escala. Foto: Célio China

O efeito cascata na economia local


O aumento da produção também abriu novos mercados. A empresa saiu de três clientes em Porto Velho e passou a atender mais de duzentos pontos de venda em Rondônia e no Acre.


Além da própria marca, a Norte Minas passou a fabricar pão de queijo para o Paiol do Queijo, fornecedor de matéria-prima da fábrica. Foto: Célio China
Além da própria marca, a Norte Minas passou a fabricar pão de queijo para o Paiol do Queijo, fornecedor de matéria-prima da fábrica. Foto: Célio China

Esse avanço também fortaleceu parcerias dentro da cadeia produtiva. O Paiol do Queijo, empresa conhecida pela comercialização de queijos em Rondônia, passou a fornecer a matéria-prima usada na fabricação dos produtos. A relação cresceu e deu origem a um novo negócio: Givanildo passou a produzir pão de queijo também com a marca do parceiro.



“Isso é Deus abrindo as portas e colocando pessoas certas do outro lado, para dar continuidade a essa corrente, até o produto chegar com qualidade no consumidor final.”

— Givanildo Honorato, empresário


Por que o modelo cooperativo é diferente?


Em Rondônia, o ramo crédito responde por cerca de 89% de tudo que o cooperativismo movimenta no estado. Fonte: Sistema OCB/RO
Em Rondônia, o ramo crédito responde por cerca de 89% de tudo que o cooperativismo movimenta no estado. Fonte: Sistema OCB/RO

Fundada em 2001, em Porto Velho, a Cooperativa de Crédito e Investimentos de Rondônia - Sicoob Credjurd, nasceu voltada a servidores públicos. Em 2018, expandiu para livre admissão e passou a atender também empresas — um público que, segundo a gerente geral Gislaine Thaís, enfrenta nos bancos tradicionais obstáculos recorrentes: falta de garantias, burocracia excessiva e juros altos. É exatamente nesse ponto que o modelo cooperativo se torna diferencial para quem está começando, e a diferença começa já na própria estrutura societária da cooperativa.


Para Gislane Thaís, gerente geral do Sicoob Credjurd, o retorno financeiro gerado pela cooperativa permanece na região onde ela atua. Foto: Jonisson Cruz
Para Gislane Thaís, gerente geral do Sicoob Credjurd, o retorno financeiro gerado pela cooperativa permanece na região onde ela atua. Foto: Jonisson Cruz

"Na cooperativa, o cliente, que nós chamamos de associado, é dono do negócio. Ele tem direito de voto e direito de receber o lucro que a cooperativa obteve no exercício. Esse retorno fica na nossa região — fomenta a economia local, e todo mundo sai ganhando", explica.

Há outro ponto que, segundo a gerente, faz diferença depois que o crédito já foi liberado: o acompanhamento contínuo do negócio.


“Nós fazemos todo um acompanhamento. Nossos gerentes vão in loco na empresa, fazemos uma visita técnica, conversamos para entender as dores e o que o cooperado precisa, para que a gente possa ofertar o melhor crédito, da melhor maneira", afirma — uma relação que, segundo ela, ajuda diretamente no crescimento do negócio.


O que vem para o futuro?

Para Givanildo, o crédito cooperativo virou parte da estratégia do negócio. Ele já constrói um novo galpão, maior, com espaço para máquinas automatizadas e que deve contar com uma loja de venda direta ao consumidor. Para atender à demanda crescente, também investiu na compra de um caminhão, com a pretensão de reduzir os custos com frete.


Novo galpão em construção deve abrigar máquinas automatizadas e uma loja de venda direta ao consumidor. Foto: Célio China
Novo galpão em construção deve abrigar máquinas automatizadas e uma loja de venda direta ao consumidor. Foto: Célio China

Um sonho que por muito tempo existiu apenas no papel começa a se transformar em realidade com coragem, planejamento e investimento.


“O Givanildo de hoje tem mais coragem, bastante coragem e bastante saúde”, resume o empresário.


A trajetória do empresário retrata um fenômeno maior: quando o empreendedor tem acesso facilitado ao crédito, além de desenvolver o negócio, ele contribui para o fortalecimento da economia regional, gerando, além de renda, emprego e sustentabilidade para a região onde está instalado.


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