Como nasce uma cooperativa forte? Os bastidores da Agrobom e o cooperativismo que transforma a agricultura familiar em Rondônia
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Por Quetila Ruiz
Durante anos, pequenos produtores rurais de Porto Velho enfrentaram um problema comum: produziam, mas não conseguiam garantir mercado durante todo o ano. A produção variava conforme o clima, as dificuldades logísticas e a capacidade individual de cada propriedade. Sozinhos, muitos perdiam clientes por não conseguir manter um fornecimento contínuo da produção.
Foi justamente dessa necessidade que nasceu a Cooperativa dos Produtores Rurais da Agricultura Familiar (Agrobom), criada em 2024 para organizar a produção, ampliar o acesso aos mercados institucionais e fortalecer a agricultura familiar em Rondônia.
Hoje, a cooperativa reúne 286 produtores com Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) ativo, comercializa dezenas de produtos e já atende contratos com órgãos como Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), Seduc (Secretaria de Estado da Educação), Semed (Secretaria Municipal de Educação) e Exército Brasileiro. Mais do que ampliar as vendas, a Agrobom se tornou um exemplo de como o cooperativismo fortalece a economia local e garante mais estabilidade para centenas de famílias.
A força que nasce da união
Segundo o diretor financeiro da Agrobom, Elcione Duarte, a cooperativa surgiu quando um grupo de agricultores percebeu que estavam perdendo oportunidades e que somente unidos conseguiriam atender às exigências do mercado.

"No início, a ideia era atender os programas da Conab. Convidamos alguns produtores, organizamos o grupo e iniciamos a cooperativa. Depois vieram os contratos da Seduc, do Exército, dos municípios e fomos crescendo. Hoje somos 286 produtores e com diversos produtos e produções"
A cooperativa começou comercializando apenas frutas e hortaliças. Atualmente também fornece derivados do leite, ovos, frango, café, peixes, condimentos e produtos processados, ampliando as possibilidades de renda para os cooperados.
Para quem vive da agricultura familiar, um dos maiores desafios sempre foi manter o fornecimento durante todo o ano. Elcione conhece essa realidade porque também é produtor rural.
"Quando eu vendia sozinho, se a produção acabava, o cliente precisava procurar outro fornecedor. Com a cooperativa isso muda. Quando um produtor encerra a colheita, outro continua produzindo. Assim conseguimos manter os contratos e garantir o abastecimento."
Essa organização coletiva reduz os impactos provocados por fatores climáticos, enchentes ou problemas na lavoura. Enquanto uma propriedade enfrenta dificuldades, outra mantém a produção ativa, permitindo que a cooperativa cumpra seus compromissos.
Quando o cooperativismo muda uma história

A transformação também pode ser vista na propriedade rural Doce Como Mel, onde vivem os produtores Ciria Maria e Oziel Tito.
Há doze anos, eles começaram a plantar banana com apenas nove mudas recebidas da família. Sem veículo, carregavam a produção nas costas. Foi Ciria quem apresentou ao marido a proposta de ingressar na cooperativa. No início, Oziel resistiu. Hoje, ele reconhece que a decisão mudou o rumo da propriedade.
A comercialização ficou mais organizada, surgiram novos mercados, a produção aumentou e a família conquistou mais segurança para investir no futuro.
A história do casal representa o que acontece diariamente com centenas de produtores que encontraram no cooperativismo um caminho para crescer de forma sustentável.
O apoio que fortalece as cooperativas

O fortalecimento da Agrobom também passa pelo trabalho desenvolvido pelo Sistema OCB. Além de representar institucionalmente o cooperativismo, a organização oferece orientação técnica, assessoramento e suporte jurídico para cooperativas em fase de consolidação.
Segundo Elcione Duarte, esse acompanhamento transmite segurança para quem administra uma cooperativa ainda jovem.
"Como nós somos novos, ainda estamos aprendendo muitas coisas. Sempre que surge alguma dificuldade, buscamos orientação junto ao corpo técnico da OCB. Eles dão suporte, assessoramento e isso nos ajuda a criar muito mais estrutura."
Esse trabalho permite que cooperativas aprimorem sua gestão e cresçam de forma organizada, fortalecendo todo o sistema cooperativista.
Inovação para preparar o futuro

Agora a Agrobom inicia uma nova etapa de desenvolvimento. A cooperativa foi selecionada para participar do ALI Coop, programa desenvolvido pelo Sebrae em parceria com o Sistema OCB - Organização Das Cooperativas Brasileira em Rondônia, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio (MDIC) e outras instituições.
O projeto leva agentes locais de inovação às cooperativas durante um período de doze meses para identificar desafios, elaborar planos de melhoria, aperfeiçoar processos produtivos, ampliar mercados e fortalecer práticas sustentáveis.
Em Rondônia, foram mapeadas cerca de 50 cooperativas. Após um processo de seleção baseado em critérios técnicos e no potencial de desenvolvimento, apenas nove foram escolhidas para participar da primeira etapa do programa.
De acordo com o coordenador estadual do ALI Coop, Ernani Gomes de Souza, o alcance do projeto vai muito além das cooperativas selecionadas.

"Levantamos que cerca de duas mil famílias estão diretamente ligadas a essas cooperativas. Então imagine: um trabalho realizado com apenas nove cooperativas acaba chegando a aproximadamente duas mil famílias. A relevância desse projeto é muito grande. O cooperativismo é justamente isso: a união de forças para um mesmo objetivo."
Além de melhorar a gestão, o programa busca ampliar o acesso a novos mercados, reduzir a dependência exclusiva das compras governamentais e incentivar processos de inovação que aumentem a competitividade das cooperativas da Amazônia Legal.
Desenvolvimento que permanece

A trajetória da Agrobom demonstra que o cooperativismo vai além da comercialização da produção. Ao organizar agricultores familiares, fortalecer a gestão, ampliar mercados e investir em inovação, a cooperativa gera impactos que alcançam propriedades rurais, comunidades e toda a economia regional.
Histórias como a de Ciria e Oziel mostram o resultado dessa transformação. Mas, por trás de cada família beneficiada, existe uma rede formada por produtores, cooperativas, Sistema OCB, Sebrae e parceiros que trabalham para fortalecer um modelo de desenvolvimento baseado na cooperação.

Na Agrobom, o que começou com um pequeno grupo de agricultores hoje representa uma estrutura capaz de reunir centenas de produtores, garantir mercados, gerar renda e preparar o cooperativismo rondoniense para os desafios do futuro.
Porque, quando a força é coletiva, o desenvolvimento deixa de ser apenas uma conquista individual. Ele permanece no campo, fortalece comunidades e transforma realidades.




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