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Afeto que transforma vidas: o abraço da Justiça e da sociedade que devolve a esperança a crianças e adolescentes acolhidos em Porto Velho

há 20 horas
4 min de leitura

Em Porto Velho, cerca de 83 crianças e adolescentes aguardam por laços de carinho e proteção através do projeto “Apadrinhando uma História”, uma parceria entre o Tribunal de Justiça de Rondônia com a rede municipal que rompe muros institucionais e reconstrói futuros.


Porto Velho/RO


Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO). Imagem: Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

Onde o calor humano e a força da comunidade deveriam ser garantias natas, dezenas de crianças e adolescentes convivem diariamente com uma ausência silenciosa: a falta de uma referência familiar. Atrás dos portões das unidades de acolhimento em Porto Velho, histórias de superação se misturam ao desejo de pertencer a alguém. E para preencher esse vazio que o projeto da rede municipal “Apadrinhando uma História”, em parceria com o Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO), atua como uma ponte entre o amparo legal e o calor do afeto.


Playground para crianças no espaço de lazer da unidade de acolhimento Casa criar. Imagem: Divulgação Casa Criar
Playground para crianças no espaço de lazer da unidade de acolhimento Casa criar. Imagem: Divulgação Casa Criar

Atualmente, o município abriga cerca de 83 crianças e adolescentes sob medidas de proteção. Desse total, aproximadamente 53 estão inseridos no acolhimento institucional, distribuídos em espaços como a tradicional Casa Criar (que acolhe desde recém-nascidos até os 18 anos) e a Casa da Juventude (voltada exclusivamente para o público masculino de 12 a 18 anos), além da recém-planejada Casa Aurora, em processo de implantação. Outros 29 a 31 jovens são atendidos de forma integrada pelo programa de Acolhimento Familiar.


São números que revelam uma rede complexa, mas que, acima de tudo, estampam rostos, sonhos e a urgência de uma sociedade que precisa se fazer presente.


A Justiça que protege e acolhe

Dra. juíza Kerley Alcântara, da Vara de Proteção à Infância e Juventude de Porto Velho. Imagem: João Vitor
Dra. juíza Kerley Alcântara, da Vara de Proteção à Infância e Juventude de Porto Velho. Imagem: João Vitor

A distância entre a norma jurídica e a realidade social muitas vezes representa o maior desafio na garantia de direitos. Em Rondônia, a Justiça da Infância e da Juventude exerce um papel que vai muito além dos gabinetes, fundamentada nos preceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei 8069/90). Cabe ao Poder Judiciário processar, julgar e fiscalizar rigorosamente as medidas protetivas, assegurando que nenhuma criança fique invisível perante o Estado.


Mais do que cumprir a lei, o TJRO tem buscado humanizar essa entrega. O projeto Apadrinhando uma História nasce exatamente dessa premissa: estruturar caminhos legais e seguros para que a sociedade civil participe ativamente da vida desses menores, especialmente daqueles que possuem remotas chances de reinserção familiar ou adoção imediata.

Sefra Maria Barros Silva, Gerente de Acolhimento Familiar. Imagem: João Vitor
Sefra Maria Barros Silva, Gerente de Acolhimento Familiar. Imagem: João Vitor

A iniciativa se divide em três frentes de atuação para atender a diferentes perfis e disponibilidades dos padrinhos:

• Padrinho Provedor: focado no suporte material e financeiro, auxiliando com o patrocínio de cursos, materiais escolares, vestuário ou melhorias estruturais.

• Padrinho Prestador de Serviços: profissionais de diversas áreas que doam seu tempo e talento oferecendo atendimento especializado (como reforço escolar, consultas de saúde, oficinas e lazer).

• Padrinho Afetivo: aquele que constrói um vínculo pessoal direto com a criança ou adolescente, retirando-o periodicamente da instituição para passeios, fins de semana ou datas festivas, tornando-se uma referência de afeto e porto seguro.


A rede em ação: do CREAS ao calor do lar


Sede do CREAS no município. Imagem: Divulgação Creas
Sede do CREAS no município. Imagem: Divulgação Creas

Para que o apadrinhamento aconteça com total segurança jurídica e psicológica, o projeto conta com uma engrenagem que envolve órgãos de assistência social, como a Secretaria Municipal de Inclusão e Assistência Social (Semias) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). É o trabalho técnico que realiza a triagem, o estudo psicossocial e o acompanhamento contínuo, garantindo que o acolhimento seja sinônimo de proteção e nunca de novas rupturas.


Mas quando a teoria institucional encontra a prática humana, o resultado ganha contornos emocionantes.


Ane Caroline, técnico de enfermagem e Madrinha do projeto. Imagem: João Vitor
Ane Caroline, técnico de enfermagem e Madrinha do projeto. Imagem: João Vitor

A técnica de enfermagem Ane Caroline conhece bem o peso transformador dessa escolha. Ela já atuou como madrinha afetiva por duas vezes: primeiro abraçando a jornada de uma adolescente e, posteriormente, acolhendo de forma afetiva uma criança menor. Oferecendo carinho, suporte e, sobretudo, atenção genuína, Ane relata que a experiência vai muito além de cumprir um papel social. Para ela, o gesto reconstrói a oportunidade de um futuro digno para o afilhado e devolve à sua própria vida um sentimento profundo de gratidão e preenchimento.


O peso do amanhã e a urgência do afeto


Tatiane Lima, Psicóloga no serviço de acolhimento familiar, realiza atendimento com as crianças e padrinhos. Imagem: João Vitor
Tatiane Lima, Psicóloga no serviço de acolhimento familiar, realiza atendimento com as crianças e padrinhos. Imagem: João Vitor

A ciência e a psicologia reforçam o que os olhos sensíveis já percebem. Embora as unidades de acolhimento ofereçam abrigo, segurança física e alimentação, o desenvolvimento psicossocial saudável de um ser humano exige vínculos estáveis. A convivência comunitária e o afeto atuam como escudos protetivos contra os traumas do abandono.


Esse olhar se torna ainda mais crítico quando se fala de adolescentes. Unidades como a Casa da Juventude abrigam rapazes que se aproximam da maioridade. Sem o suporte afetivo e referências familiares estruturadas, o risco de exclusão social ao completarem 18 anos multiplica-se. É exatamente nessa fase que a presença de um padrinho se torna o divisor de águas entre a vulnerabilidade e a construção de um futuro com oportunidades reais.


Como mudar uma história?

O projeto Apadrinhando uma História prova que a solidariedade institucionalizada é capaz de reescrever destinos. Para se tornar um padrinho ou madrinha, o interessado deve ter mais de 21 anos, ser pelo menos 16 anos mais velho que o afilhado e passar pelas etapas de avaliação e capacitação da equipe técnica.


As inscrições e informações sobre como integrar essa rede de amor e cidadania podem ser obtidas diretamente pelo telefone (69) 98473-3849.


Porque, em um estado de dimensões grandiosas como Rondônia, garantir o acesso à Justiça também significa assegurar que nenhuma criança precise caminhar sozinha rumo ao futuro. Um gesto de carinho de hoje pode ser a âncora que faltava para transformar a história de amanhã.

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