Jovem Paiter Suruí conquista carteira da OAB e abre caminho para nova geração de indígenas na advocacia
Da aldeia para a universidade, Daivid Oiago Suruí venceu desafios de acesso, estudo e adaptação e agora pretende usar o Direito na defesa dos povos indígenas e na aproximação das comunidades com a Justiça

Da Terra Indígena Sete de Setembro para a advocacia. O jovem Daivid Oiago Suruí, do povo Paiter Suruí, conquistou a aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e agora integra o quadro de advogados de Rondônia. A conquista representa não apenas a realização de um projeto pessoal, mas também um marco de representatividade para jovens indígenas que buscam ocupar espaços historicamente distantes de suas comunidades.
Atualmente morando em Espigão do Oeste, Daivid deixou a aldeia para buscar oportunidades de estudo na cidade. Durante a graduação em Direito, precisou se adaptar a uma realidade diferente da que conhecia, conciliando estudos, trabalho e, ao final do curso, a preparação para o exame da OAB.
“O principal obstáculo para mim foi o acesso”, relata o advogado. Segundo ele, a família e a comunidade foram fundamentais para que não desistisse diante das dificuldades. A aprovação, afirma, é resultado de persistência e também da confiança depositada nele por seu povo.

A formação jurídica também colocou Daivid diante de duas formas distintas de compreender a sociedade. Enquanto o Direito brasileiro é estruturado em conceitos como propriedade, indivíduo e normas escritas, a organização Paiter Suruí está fortemente relacionada à coletividade, ao território, à cultura e aos conhecimentos tradicionais.
Para o jovem advogado, aprender a compreender essas duas perspectivas foi um dos desafios da graduação, mas também uma oportunidade de perceber que o sistema jurídico pode dialogar com diferentes formas de organização social.
A nova carteira da OAB ganhou, assim, um significado que vai além da atuação profissional. Para Daivid, sua presença na advocacia mostra a outros jovens indígenas que a universidade e os espaços profissionais também podem ser ocupados por eles.
“Eu vejo que essa conquista não é apenas algo meu, mas uma conquista da minha família, da minha comunidade e, de certa forma, de todo o meu povo”, afirma.
Direito como instrumento de defesa

A experiência vivida na aldeia também influencia o tipo de advogado que Daivid pretende ser. Ele quer utilizar a formação jurídica para defender direitos e aproximar comunidades indígenas do sistema de Justiça.
O advogado pretende atuar em diferentes áreas e não se limitar ao Direito Indígena ou Ambiental, embora reconheça a forte relação dessas áreas com sua trajetória. Também demonstra interesse pelo Direito Civil e Previdenciário.
“A minha origem faz parte de quem eu sou, mas não determina até onde eu posso chegar profissionalmente”, afirma.
Entre as principais questões que pretende enfrentar está a proteção dos territórios indígenas e o fortalecimento da autonomia das comunidades. Na avaliação dele, garantir a proteção territorial é fundamental para que os povos possam decidir como viver, produzir, preservar sua cultura e construir o próprio futuro.
A formação jurídica também pode ajudar a aproximar dois universos que muitas vezes não se comunicam com facilidade: o sistema de Justiça brasileiro e a realidade das comunidades indígenas. Por conhecer os dois lados, Daivid acredita que pode atuar como uma ponte, traduzindo para a linguagem jurídica as necessidades das comunidades e, ao mesmo tempo, explicando aos indígenas o funcionamento das instituições do Estado.
Representatividade nos espaços de Justiça

Para o jovem Paiter Suruí, a presença indígena na advocacia e em outras áreas do sistema de Justiça contribui para que diferentes experiências e perspectivas sejam consideradas na construção da Justiça brasileira.
Segundo ele, a pouca presença de indígenas nesses espaços pode dificultar a compreensão de questões culturais, territoriais e sociais específicas dos povos originários.
A intenção de Daivid é também colocar sua formação a serviço das estratégias de defesa territorial, ambiental e de direitos indígenas desenvolvidas pelo povo Suruí ao longo dos anos. Ele pretende contribuir especialmente com a proteção jurídica dos territórios, a autonomia das comunidades e o acompanhamento de projetos ambientais.
Conhecido pelo protagonismo em pautas ambientais e de defesa dos direitos indígenas, o povo Paiter Suruí passa a contar também com um advogado formado dentro de sua própria comunidade, que pretende transformar as reivindicações dos indígenas em instrumentos jurídicos de proteção e autonomia.
Um caminho para outros jovens indígenas

Ao olhar para a própria trajetória, Daivid deixa uma mensagem para outros jovens indígenas que sonham em ingressar na universidade e seguir carreira no Direito: as dificuldades não devem ser vistas como sinal de que aquele espaço não lhes pertence.
“Eu vim de uma comunidade indígena, saí para estudar na cidade, enfrentei dificuldades e muitas vezes tive que aprender a estudar em um ambiente que para mim era completamente novo. Hoje eu sou advogado e tenho a minha carteira da OAB”, afirma.
Para ele, ocupar esses espaços é também uma forma de abrir portas para quem vem depois.
“A nossa origem não é uma barreira. Ela pode ser justamente a força que vai nos levar mais longe”, resume.
Agora, com a carteira da OAB em mãos e uma nova etapa profissional pela frente, Daivid Oiago Suruí pretende transformar a própria conquista em incentivo para que outros jovens indígenas também estudem, ingressem nas universidades e ocupem os espaços que, segundo ele, também lhes pertencem.




Comentários